

Artes integradas
As chamadas artes integradas podem ser vistas como a forma de expressão humana mais característica: ao desenhar, nosso corpo se movimenta; ao dançar, nós cantamos; ao contar um fato, a encenação se faz; ao brincar de faz de conta, imaginamos e criamos. Por isso, ao abordar essas formas de arte que mesclam as linguagens durante a educação em Arte dos estudantes, ganhamos a oportunidade de aproximá-los mais ainda dos saberes desse campo.
Além disso, as formas de expressão da arte contemporânea caracterizam-se quase sempre por essa integração. A arte contemporânea nasceu da ruptura com os valores da arte tradicional ocidental, por isso atualmente temos obras de arte que podem nos causar sensações diversas. Existem muitas vertentes e tendências da arte contemporânea, por isso é muito difícil defini-la de maneira a dar conta de toda essa variedade. Mas uma coisa que podemos afirmar acerca das transformações que ocorreram na arte durante o século XX e continuam a se desenrolar no século XXI é que noções como as de beleza, imitação do real, obra-prima, talento e, principalmente, o papel e o valor da arte passaram a ser amplamente discutidos e revistos. Por isso, a arte tem estado em permanente mudança e muitas das produções artísticas atuais nos causam sensações de estranhamento, curiosidade e, por vezes, rejeição.
Muitas vezes o senso comum e os mecanismos de legitimação da arte, como os museus, as galerias, os livros e os críticos de arte, apresentam ideias que o público considera contraditórias. Um exemplo disso é o fato de muitos museus possuírem em seu acervo algumas obras de arte clássicas e outras contemporâneas que, embora discordem do ideal clássico, estão expostas na mesma instituição.
Nesse sentido a arte contemporânea caracteriza-se por:
• questionar o sistema de circulação das artes;
• incorporar as artes das periferias urbanas;
• ocupar as ruas e os espaços públicos;
• mesclar as culturas populares brasileiras e as artes que são fruto do ensino formal;
• valorizar, ver e ouvir quem somos nós.
Além disso, segundo Ana Mae Barbosa[1], os seguintes elementos estruturam a arte contemporânea:
• diálogo entre as linguagens artísticas;
• uso inusitado de materiais e meios;
• estranhamento que causa no público;
• ludicidade e integração entre obra e espectador;
• uso de tecnologias de comunicação e informação.
Outro aspecto abordado nas linguagens integradas é a cultura midiática. Segundo a Arte-educação baseada na cultura visual, a cultura midiática pode e deve ser problematizada nas aulas de Arte, pois, em nossos dias, quase tudo o que nos sensibiliza e informa advém das imagens e “visualidades” veiculadas pelos meios de comunicação e pela publicidade. Visualidade, para os arte-educadores, significa mais do que visão, ou seja, mais do que um dos sentidos humanos. Ela se relaciona ao modo como um grupo social cria o seu modo de “ver”, ou de descrever e representar o mundo visualmente. Um dos representantes dessa forma de entender o ensino de Arte é o já mencionado professor estadunidense Nicholas Mirzoeff[2]. Segundo ele, a visualização é a característica do mundo contemporâneo, entretanto, poucos de nós conhecemos aquilo que observamos, pois existe uma grande distância entre a constante experiência visual da cultura contemporânea e a habilidade para analisá-la.
Utilizar a linguagem audiovisual em sala de aula apenas como passatempo é, portanto, desconsiderar seu potencial educativo. Os estudantes podem ampliar diversas habilidades se forem instigados a pensar nas produções midiáticas e a produzir audiovisuais. Enfim, são telespectadores e aprendem muitas coisas com a televisão: conhecem culturas, absorvem diferentes modos de falar e agir, recebem informações, etc. Tudo isso se dá por meio da representação imagética e da percepção sonora. Cabe, então, ao educador, saber usá-las de forma produtiva para criar significados.
O trabalho com a linguagem audiovisual na escola abrange três eixos primordiais: apreciação, produção e divulgação. A apreciação enfoca a leitura crítica de alguma obra mediada pelo educador. A produção, a participação em experimentações audiovisuais com e sem tecnologias, utilizando brinquedos, atividades com luz e sombra, registros do movimento, brincadeiras, etc. Já a divulgação dos trabalhos realizados pelas crianças implica uma ação política de democratização de acesso aos meios de comunicação. Nesse sentido, a internet se configura em excelente meio, além dos eventos escolares.
Em relação aos gêneros cinematográficos, os desenhos animados são especialmente indicados para o trabalho com crianças. O mundo infantil é repleto de personagens fictícios que participam de histórias próprias. Essas fantasias nascem de uma realidade interna, criada pela vida afetiva e por representações que se constroem internamente. Dessa forma, os desenhos animados e filmes de animação que compõem a coleção foram cuidadosamente selecionados e são abordados com um viés crítico e voltado para a formação cidadã.
Com a presença crescente das tecnologias na vida cotidiana, muitas crianças dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental tiram fotografias e fazem pequenos vídeos com telefone celular. Assim, é muito indicado o uso desse aparelho em trabalhos com a linguagem audiovisual. É papel da escola fornecer parâmetros, tanto técnicos como éticos, para que as tecnologias sejam utilizadas com cuidado e consciência, evitando maus usos.
No material, o trabalho com a linguagem audiovisual é feito com o objetivo de ampliar o repertório cultural dos estudantes, além de mostrar possibilidades de criação com o uso de tecnologias digitais de informação e comunicação. Sendo nativos digitais, a produção usando um celular, câmera fotográfica ou de vídeo, ou um gravador de áudio, pode ser uma tarefa que os engaje e seja próxima do que têm acesso fora da escola.
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[1] BARBOSA, Ana Mae. In: VERUNCHK, Micheliny. Afinal, o que é arte contemporânea. Itaú Cultural. Disponível em: https://tedit.net/2kUIY2. Acesso em: 10 jul. 2021.
[2] MIRZOEFF, Nicholas. Visual Culture Reader. London: Routledge, 1998; Idem. An Introduction to Visual Culture. London: Routledge, 1999.
